O ano letivo de 2026 começa em poucas semanas em todo o Brasil, mobilizando cerca de 48 milhões de alunos da educação básica. A maioria (mais de 80%) estuda na rede pública, que ainda sente os efeitos pós-pandemia com queda de matrículas, enquanto a rede privada cresce em tamanho. Especialistas em educação aproveitam a volta às aulas para refletir sobre a evolução dos currículos do ensino fundamental e médio, dos pontos fortes e fracos dos sistemas atuais às diferenças em relação ao ensino de 50 anos atrás, nas redes pública e particular.
Currículo nacional em transformação: o que mudou até 2025
Nos últimos anos, o Brasil passou por uma revisão curricular de grande alcance com a implantação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a reformulação do Novo Ensino Médio. Em 2024, uma nova lei ampliou a carga horária da formação geral básica para 2.400 horas e restabeleceu disciplinas obrigatórias como História, Biologia, Sociologia e Educação Física.
Segundo o ministro da Educação, Camilo Santana, essa retomada “garante uma formação mais completa para os alunos do Ensino Médio brasileiro”. A política também determina que todas as escolas ofereçam pelo menos algumas opções de itinerários formativos, medida que busca reduzir desigualdades entre regiões e redes de ensino.
O papel das escolas privadas e dos sistemas apostilados
Paralelamente ao currículo nacional unificado pela BNCC, muitas escolas, principalmente as privadas, adotam sistemas de ensino apostilados que organizam todo o material didático, o treinamento de professores e as avaliações. Entre os mais tradicionais e influentes do setor estão nomes como Objetivo, Anglo, Positivo e Maxi.
O Sistema de Ensino Objetivo, por exemplo, está presente em mais de 450 municípios (inclusive no Japão) e se destaca no preparo para vestibulares, com quase 2 mil aprovações na USP em 2025 e mais de 10 mil no SiSU. Por sua vez, o Sistema Anglo de Ensino, com mais de 70 anos de história e 800 escolas parceiras, é reconhecido pela disciplina acadêmica e pelo alto índice de aprovações em universidades. Outro destaque é a Rede Maxi de Ensino, com mais de 30 anos de atuação e uma metodologia que busca equilíbrio entre teoria e prática, focada em formar cidadãos racionais e emocionalmente preparados.
Grandes editoras educacionais como a FTD (que atende 16 milhões de estudantes por ano) e redes como Pitágoras e Mackenzie também integram esse mercado de currículos prontos, oferecendo soluções que vão da educação infantil ao Ensino Médio.
Padronização: benefício ou limite?
Os pontos fortes desses sistemas apostilados estão frequentemente associados à padronização e ao apoio pedagógico que oferecem. Seus materiais integrados facilitam o planejamento dos educadores e costumam alinhar o ensino às avaliações nacionais.
Municípios que adotaram apostilas particulares relatam ganhos de desempenho, incluindo melhoria no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), e famílias tendem a valorizar “as marcas reconhecidas no meio educacional”. Um exemplo disso é que, em 2014, pelo menos 142 prefeituras brasileiras substituíram totalmente os livros didáticos gratuitos do Ministério da Educação (MEC) por sistemas privados, na tentativa de elevar a qualidade do ensino local. No estado de São Paulo, um em cada quatro municípios aderiu a apostilas particulares em alguma etapa do Ensino Fundamental. Essa padronização, em teoria, facilita o trabalho dos educadores, ao fornecer “todos os textos e exercícios a serem feitos em todas as disciplinas”.
Por outro lado, os pontos fracos também se tornaram evidentes. A uniformidade de conteúdo pode engessar a prática pedagógica e limitar a criatividade de professores e alunos. A reportagem da CartaCapital identificou um “efeito colateral explícito” no uso de sistemas apostilados: o sentimento de “amarras” no currículo, citado por estudantes, docentes e gestores.
Ao seguir rigorosamente a apostila para não “atrasar o restante” da matéria, professores encontram pouco espaço para explorar interesses específicos de cada turma ou aprofundar temas sugeridos pelos alunos. Há casos em que o material padronizado pressupõe conhecimentos prévios que muitos estudantes não tiveram, tornando inviável cumprir certas lições na turma regular. Nesses momentos, educadores acabam recorrendo a estratégias próprias e até aos livros do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) do MEC para adaptar o ensino à realidade da classe. “Quando se adota o apostilamento, é muito difícil sair”, admitiu um secretário municipal após constatar que a padronização elevou índices oficiais, mas não necessariamente o aprendizado real.
Enquanto isso, nas redes públicas estaduais e municipais, o desafio é implementar o currículo da BNCC com qualidade e equidade. A senadora e professora Dorinha Seabra resumiu recentemente a preocupação das redes de ensino, tanto públicas quanto particulares, diante das mudanças no Ensino Médio: garantir que a escola tenha significado para os jovens e respeite o direito de aprender de cada aluno.
Para Dorinha, não se pode “voltar ao desenho anterior”, marcado pela falta de interesse dos estudantes, mas também é preciso corrigir as falhas da reforma recente. Em outras palavras, nem o modelo tradicional conteudista, nem a flexibilização mal executada serão suficientes por si sós: é necessário investir em infraestrutura, formação docente e engajamento dos alunos para que o currículo nacional se traduza em aprendizado efetivo.
Educação brasileira: um olhar para 50 anos atrás
Em fevereiro de 1975, o cenário educacional brasileiro era significativamente diferente. O acesso à escola era muito mais restrito: apenas a educação primária, dos 7 aos 14 anos, era obrigatória por lei, uma faixa etária hoje expandida para dos 4 aos 17 anos. Grande parte da população adulta era analfabeta ou não concluía os estudos básicos. Nas escolas, predominava um modelo pedagógico tradicional, centrado no professor como autoridade e nos alunos em um papel passivo.
“O modelo educacional há 50 anos era centralizado na figura do professor, com foco em métodos tradicionais e pouca participação ativa dos alunos”, explica a educadora Camila Daniel, uma das principais especialistas em currículo no país e colaboradora em mais de 30 livros acadêmicos. Segundo ela, naquela época, o aprendizado ocorria sobretudo pela memorização e disciplina rígida, enquanto hoje se valoriza o aluno como protagonista, estimulando habilidades socioemocionais e pensamento crítico em sala de aula.
A reforma de 1971: quando o currículo técnico era obrigatório
Em pleno regime militar, uma grande reforma impôs a profissionalização compulsória no antigo 2º grau (Ensino Médio). Todas as escolas, públicas e privadas, deveriam ofertar cursos técnicos, de auxiliar de escritório a agropecuária, dentre mais de 100 habilitações possíveis, de modo que o estudante saísse do colégio já com um certificado profissionalizante. O currículo geral acadêmico (então dividido em cursos Científico ou Clássico) perdeu espaço para disciplinas práticas voltadas ao mercado de trabalho. Havia também matérias como Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil, usadas para difundir valores alinhados ao regime autoritário.
Curiosamente, a ideia de um currículo comum nacional com parte diversificada não é nova: a mesma Lei 5.692/71 já “previa um currículo comum para o 1º e 2º graus e uma parte diversificada, em função das diferenças regionais”, princípio que a BNCC e o Novo Ensino Médio resgatam nos dias atuais, cada qual em seu contexto democrático.
A implementação forçada da reforma de 1971, contudo, fracassou em muitos objetivos. Faltavam estrutura e professores qualificados para tantos cursos técnicos, e a promessa de conciliar formação geral e profissionalizante não se realizou plenamente. “Foi um sonho que não se realizou”, diria anos depois a professora emérita Magda Soares, integrante do grupo que concebeu a ideia original da reforma. Nos anos 1980, o Ensino Médio brasileiro voltou a se orientar majoritariamente para a formação geral e a preparação ao vestibular, sobretudo nas escolas particulares de elite, enquanto o ensino público sofria com a falta de investimento.
Desafios atuais: desigualdade, evasão e permanência estudantil
De lá para cá, a distância entre escolas públicas e privadas na qualidade de ensino continua sendo um desafio, embora tenha havido avanços. Redes particulares tradicionais, muitas ligadas a sistemas apostilados, historicamente apresentam desempenhos superiores em avaliações nacionais e altas taxas de aprovação no ensino superior. Já a rede pública atende à maioria dos alunos e vem buscando melhorias, por exemplo, expandindo escolas de tempo integral e programas de permanência estudantil para reduzir a evasão. Em 2023, o índice de abandono no Ensino Médio público atingiu 6% dos estudantes, reflexo das dificuldades em manter os jovens engajados.
Iniciativas como o programa federal Pé de Meia e o estadual Todo Jovem na Escola (no Rio Grande do Sul) oferecem auxílio financeiro e bolsas a alunos de baixa renda, para que não precisem deixar os estudos. “É tão importante estimular nossos jovens a permanecerem na escola e avançarem em sua formação. Isso dá condições para que eles possam transformar não só o seu futuro, mas também o do país”, defende Raquel Teixeira, secretária de Educação do RS.
Entre passado e futuro: o que esperar de 2026
A volta às aulas de 2026 representa mais do que o retorno às rotinas escolares: simboliza o reencontro do país com suas próprias escolhas educacionais. Depois de décadas de avanços, retrocessos e reformulações, a educação brasileira chega a este novo ciclo ainda em busca de equilíbrio entre tradição, inovação e qualidade.
Com um currículo renovado, novas diretrizes para o Ensino Médio e um debate crescente sobre metodologias, autonomia docente e equidade, o desafio central permanece o mesmo: garantir que cada aluno, independentemente de sua rede, região ou contexto, tenha acesso real ao direito de aprender. O ano que começa carrega, portanto, a expectativa de que políticas, escolas e sociedade avancem juntas para construir uma escola mais inclusiva, atual e capaz de preparar as novas gerações para um futuro em constante transformação.
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