Dublês de ação conquistam reconhecimento histórico no Oscar 2026
Profissionais que arriscam a vida por trás das câmeras ganham, pela primeira vez, uma categoria própria na maior premiação do cinema. Decisão inédita da Academia reflete a importância dos dublês para a indústria audiovisual e lança luz sobre os bastidores de uma carreira marcada por treinamento árduo, riscos constantes e décadas de invisibilidade. Na esteira dessa conquista, que terá estreia oficial na cerimônia centenária do Oscar, a reportagem explora o dia a dia dos “heróis anônimos” do cinema e destaca nomes de referência no Brasil e no exterior, como Zoë Bell, Bobby Holland Hanton, Jackson Spina e Wallace Meirelles.
O ator e dublê Thiago Luzzatto, um dos talentos brasileiros da área, conta sua trajetória, celebra a valorização da categoria e compartilha expectativas sobre o futuro dos dublês na era pós-Oscar.
Hollywood enfim aplaude seus dublês. Após mais de três décadas de campanha, os profissionais de ação de Hollywood finalmente serão reconhecidos com uma estatueta dourada. Em abril de 2025, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS) anunciou a criação de um prêmio competitivo dedicado aos dublês, que será incorporado às categorias do Oscar a partir da edição de 2028, marcando a 100ª cerimônia da premiação. Trata-se de um feito histórico para uma classe que, apesar de essencial em praticamente todos os filmes de ação desde os primórdios do cinema, permanecia até então excluída do maior palco de honrarias de Hollywood.
Reconhecimento histórico no Oscar
A notícia da inclusão de um Oscar de Melhor Coordenação de Dublês ou “Melhor Design de Dublês”, como vem sendo chamada a categoria, foi recebida com entusiasmo por cineastas e atores.
“Desde os primórdios do cinema, os dublês têm sido parte integrante da produção cinematográfica. Estamos orgulhosos de homenagear o trabalho inovador destes artistas técnicos e criativos e parabenizá-los pelo seu compromisso e dedicação em alcançar esta ocasião importante”, declararam, em comunicado oficial, o CEO da Academia, Bill Kramer, e a presidente Janet Yang.
A nova categoria será a primeira adicionada ao Oscar em mais de duas décadas, a última havia sido Melhor Elenco, anunciada em 2024. A conquista representa o ápice de uma luta prolongada nos bastidores de Hollywood. Já em 1991, o veterano coordenador de dublês, Jack Gill, iniciou um lobby para criar um Oscar específico para a área, angariando apoio de pesos pesados como Steven Spielberg, Martin Scorsese, Brad Pitt e Arnold Schwarzenegger. Porém, por muitos anos, a Academia resistiu à ideia, alegando inclusive que havia poucos profissionais de dublê entre seus membros para justificar a categoria. Enquanto isso, premiações como o Emmy e o Screen Actors Guild Awards (SAG) já premiavam dublês e coordenadores de ação anualmente, mas o Oscar mantinha esses artistas fora de cena.
Essa postura começou a mudar recentemente. Na última década, a Academia triplicou o número de dublês em seu quadro de votantes, superando a marca de 100 membros dessa especialidade. Em 2023, dublês e coordenadores de ação foram agrupados em um novo ramo dentro da Academia (Production and Technology Branch), ao lado de técnicos de diversas áreas, dando representatividade formal à categoria. Com isso, os argumentos contra o prêmio enfraqueceram, ao mesmo tempo em que filmes de grande apelo popular exibiam cenas de ação cada vez mais sofisticadas, como Mad Max: Estrada da Fúria e os filmes da franquia Missão Impossível e Velozes e Furiosos, reforçando a sensação de que o reconhecimento estava atrasado.
“Não existe nenhum outro chefe de departamento no cinema que lide com uma pressão em que vidas estão em jogo”, destacou Jack Gill, enfatizando que o trabalho dos dublês envolve “sangue, suor e lágrimas” reais em prol da magia do entretenimento.
A pressão pelo Oscar dos dublês ganhou novo impulso liderada pelo diretor David Leitch, ele próprio um ex-dublê e coordenador de ação (conhecido por filmes como John Wick e Deadpool 2). Leitch e colegas como o designer de dublês Chris O’Hara fizeram várias apresentações formais aos comitês da Academia nos últimos anos. Em 2024, Leitch dirigiu The Fall Guy, um filme de ação que homenageia a categoria, na pré-estreia, dublês desceram de tirolesa, saltaram de motocicletas e se atiraram através de vidraças em pleno tapete vermelho, roubando a cena dos astros de Hollywood.
“Stunts are essential to every genre of film and rooted deep in our industry’s history – from the groundbreaking work of early pioneers like Buster Keaton, Harold Lloyd and Charlie Chaplin, to the inspiring artistry of today’s stunt designers, coordinators, performers and choreographers,” declarou Leitch após o anúncio da Academia. Em tradução livre, Leitch ressaltou que os dublês sempre foram essenciais em todos os gêneros e que esta honraria chega para consagrar desde os pioneiros das acrobacias até os artistas da ação dos dias de hoje.
A partir de agora, esses artistas passam a ter seu lugar ao sol na maior premiação do cinema, um momento celebratório que muitos definem como a correção de uma injustiça histórica.
Heróis anônimos por trás das câmeras
Quem nunca prendeu a respiração ao ver um personagem pendurado no alto de um prédio ou escapando por um triz de uma explosão nas telas? Cenas assim só se tornam realidade graças ao trabalho corajoso e meticuloso dos dublês de ação. Esses profissionais são, em essência, os “heróis anônimos” do audiovisual: eles assumem os riscos físicos que os astros não podem ou não devem correr, garantindo que o público viva emoções intensas com segurança para as estrelas. “O dublê entra quando a coisa fica perigosa, fazemos as cenas que não valem o risco para o ator,” resume o britânico Bobby Holland Hanton, um dos mais destacados dublês de Hollywood. O ator já representou o Batman escalando a ponte do Brooklyn, já pulou de um prédio para outro como James Bond e até lutou contra o Hulk no lugar do Thor. Em todos esses momentos, sua face permaneceu oculta do grande público, enquanto a glória ia para o ator principal, algo que Hanton e seus colegas sempre aceitaram como parte do ofício.
Por trás da modéstia e da discrição profissionais, há um consenso de que a ausência de reconhecimento público não diminui a paixão pelo trabalho. “A gente faz porque ama. Adrenalina, cinema, desafio físico, ser dublê junta tudo isso”, diz Thiago Luzzatto, ator e dublê mato-grossense.
Luzzatto, de 28 anos, atua como dublê em produções brasileiras desde 2015 e conta que precisou superar muitas barreiras para seguir carreira. “No começo, quase ninguém entendia minha escolha. Saí de Sinop (MT) para o Rio de Janeiro atrás de oportunidade. Não existe uma ‘faculdade de dublê’; então fui aprender na raça, fiz teatro para ter base de atuação e corri atrás de cursos de lutas, direção defensiva, o que aparecesse”, relembra.
Hoje, ele colhe frutos dessa persistência com participações em novelas e séries de TV, mas destaca que por muito tempo o dublê permaneceu invisível: “A família via uma cena perigosa na novela e não fazia ideia de que era eu ali, achavam que o ator tinha feito tudo. Dublê bom é aquele que ninguém nota que existiu”, brinca Luzzatto, ilustrando o quão literalmente nos bastidores esses artistas sempre operaram.
Apesar do romantismo envolvido na profissão, frequentemente associada a glamour e adrenalina, a realidade cotidiana dos dublês está longe dos holofotes. Até hoje, poucos conhecem nomes de dublês famosos, mesmo que seus feitos tenham marcado a história do cinema. Quantos espectadores sabem, por exemplo, quem foi Yakima Canutt? Esse lendário cowboy de Hollywood inovou cenas de perseguição e criou técnicas de segurança nos anos 1930 e 1940; em 1967, tornou-se o primeiro dublê a receber um Oscar honorário pelo conjunto da obra. Outro ícone, Hal Needham, quebrou tantos ossos quanto recordes de ousadia nas décadas seguintes e foi premiado com um Oscar honorário em 2012. Já Jackie Chan, astro que dispensa apresentações, recebeu uma estatueta honorária em 2016, uma forma tardia de reconhecer seu pioneirismo ao internacionalizar o trabalho dos dublês e coreografar lutas memoráveis. Fora essas honrosas exceções, gerações de dublês brilharam sem aplausos públicos. Por isso, a chegada de um Oscar competitivo para a categoria simboliza muito mais do que um troféu na prateleira, é um holofote inédito sobre milhares de profissionais cujos nomes passam batido nos créditos finais.
A Academia decidiu reconhecer esses profissionais em meio a um debate mais amplo sobre segurança e valorização nos sets de filmagem. Entre 1990 e 2016, pelo menos 43 pessoas morreram em sets de filmagem nos EUA, e outras 150 sofreram ferimentos graves que afetaram suas vidas. Globalmente, 37 mortes em set foram registradas entre 2000 e 2016. Os dublês estão entre os trabalhadores mais presentes nessas ocorrências, que incluem desde fraturas e concussões até acidentes fatais. Cada cena de ação envolve riscos reais e, apesar de todos os protocolos de segurança, o perigo nunca é completamente eliminado. Casos recentes chocaram o público e a indústria, como a morte do dublê John Bernecker em 2017 durante as gravações da série The Walking Dead, nos EUA, após uma queda mal calculada. Meses antes, uma experiente dublê de motocicleta, Joi “SJ” Harris, perdeu a vida filmando Deadpool 2. Essas tragédias expuseram a realidade muitas vezes oculta por trás da diversão: por trás de cada cena radical no cinema, há artistas se arriscando de verdade.
Bastidores da profissão: treinamento e riscos
Ser um dublê de ação exige um preparo multifacetado, tanto físico quanto mental. Não basta ser corajoso: é preciso técnica apurada, reflexos rápidos, preparo atlético e uma boa dose de planejamento. Grande parte desses profissionais vem de áreas como ginástica olímpica, artes marciais, parkour, circo ou dança. Atividades que desenvolvem coordenação motora, consciência corporal e resistência.
“A ginástica me ensinou o controle do corpo e a noção espacial. Eu observo o padrão de movimento do ator e treino para imitar aquilo, ajustando meu físico para ficar o mais parecido possível”, explica Bobby Holland Hanton sobre seu processo de preparação para dublar astros diferentes. Aos 40 anos, Hanton já teve de engordar musculatura para se igualar ao porte de Chris Hemsworth (parceiro de trabalho em filmes da Marvel) e, em outros momentos, secar o corpo para dublar atores mais esguios, uma versatilidade que ele atribui aos anos de treino disciplinado como ginasta e atleta.
Além de imitar perfeitamente a movimentação e a silhueta das estrelas, os dublês precisam dominar habilidades específicas de ação. Em uma única produção, um coordenador de dublês pode exigir que sua equipe execute uma gama impressionante de cenas perigosas. A lista inclui, por exemplo:
- Quedas de grandes alturas: saltar de prédios, pontes ou helicópteros, aterrissando em airbags ou caixas de papelão cuidadosamente posicionadas.
- Combates corporais e artes marciais: coreografar lutas realistas sem causar ferimentos graves, dominando técnicas de socos, chutes, espadas e armas improvisadas.
- Atropelamentos e perseguições: ser atingido por carros ou cair de motocicletas em movimento, usando proteção escondida e cálculo exato de tempo e posição para minimizar danos.
- Fogo controlado no corpo: realizar cenas pegando fogo, vestindo trajes anti-chamas e seguindo procedimentos precisos para apagar as chamas em segundos.
- Quedas e colisões diversas: despencar de escadas, atravessar janelas de vidro falso, ser “explodido” por cabos que simulam o impacto de uma explosão – sempre sincronizado com efeitos especiais e câmeras.
Cada uma dessas acrobacias requer treinamento exaustivo e ensaios minuciosos. Nos bastidores, os dublês desenvolvem sinais e coreografias invisíveis ao público para garantir que tudo saia conforme o planejado. “Nós repetimos dezenas de vezes uma sequência, ajustando cada passo e cada impacto. A preparação inclui saber exatamente onde cada câmera está, onde estão os colchões de proteção fora do quadro, e confiar cegamente um no outro”, descreve Thiago Luzzatto, que já coordenou lutas cenográficas em peças de teatro e foi dublê em cenas de tiroteio em séries.
Segundo ele, a confiança na equipe e o planejamento são o que separam um bom dublê de um temerário: “Não é sobre não ter medo; é sobre respeitar o perigo e se preparar tanto que o medo não paralisa”, complementa.
Mas, mesmo com toda a preparação, os acidentes acontecem. Dublês convivem com lesões frequentes, faz parte do ofício acumular cicatrizes. “Até que tenho sorte, me machuquei menos do que poderia”, disse Hanton em entrevista, logo antes de listar seu histórico: uma prótese de disco na coluna cervical, dois discos substituídos na lombar e um músculo adutor da coxa rompido 75% durante uma cena de vôo com cabos. Em um tom quase casual, ele e tantos outros minimizam contusões que deixariam a maioria de cama por semanas.
A resiliência física e mental é, de fato, um requisito obrigatório para a carreira. Luzzatto comenta que, no Brasil, muitos dublês veteranos vieram de gerações de artistas circenses, acostumados a cair e levantar como parte da rotina. “Dor vira combustível. Quebrei o dedo, a costela, muitos lugares. A gente aprende a continuar, porque o show não pode parar”, relata o dublê brasileiro, lembrando que “existe toda uma equipe contando com você para a cena acontecer”.
Ao mesmo tempo, a cultura de segurança vem evoluindo: coordenadores de ação experientes atuam como “anjos da guarda” nos sets, vetando cenas que julgam inseguras e insistindo em protocolos rígidos de proteção e equipamentos de segurança, mesmo que às vezes precisem enfrentar a impaciência de diretores ou o aperto do orçamento.
Nomes que deixaram sua marca
Apesar da falta de prêmios, o mundo dos dublês tem seus próprios astros e lendas celebradas dentro da comunidade. Com a visibilidade trazida pelo novo Oscar, muitos desses nomes começam a ganhar reconhecimento mais amplo. Uma das figuras mais emblemáticas é a neozelandesa Zoë Bell, que começou a carreira como dublê em séries cult dos anos 1990 (ela era a dublê oficial da protagonista em Xena: A Princesa Guerreira na Nova Zelândia) e depois se tornou a sombra de Uma Thurman nas cenas brutais de Kill Bill. No set do filme de Tarantino, Bell impressionou tanto que foi treinada para executar também as coreografias de artes marciais, aprendendo estilo wushu especialmente para o papel de dublê da Noiva. Ela sofreu sérias lesões durante as filmagens, incluindo costelas quebradas e um pulso rompido – mas perseverou até o fim do projeto. Sua dedicação lhe rendeu um lugar no coração de Tarantino, que a convidou para atuar como ela mesma (ou quase) no filme À Prova de Morte (2007). Zoë Bell tornou-se, assim, uma das poucas dublês a atingir status de celebridade, abrindo caminho para outras mulheres em uma profissão historicamente dominada por homens.
Outro destaque internacional é Bobby Holland Hanton, britânico que se consagrou como o dublê dos super-heróis. Com 1,85m de altura, físico moldável e treinamento em ginástica de alto nível, Hanton conseguiu a façanha de dublar personagens tão distintos quanto Batman, James Bond e Thor nos cinemas. Desde 2012, ele é o dublê oficial de Chris Hemsworth, ou seja, sempre que o deus do trovão ou outro personagem de Hemsworth precisa pular de um prédio ou levar uma surra épica, é Hanton quem aparece em cena. Seu trabalho vai desde coreografias complexas de luta até ousadias como pular 6 metros de altura sem cabo de segurança ou pendurar-se em helicópteros. Hanton já ganhou diversos prêmios da indústria de dublês e soma mais de 15 anos “fazendo as estrelas brilharem enquanto eu apanho”, brincou em entrevista recente. Ele credita o sucesso à preparação rigorosa e ao trabalho em equipe – e agora, com a categoria do Oscar, espera-se que profissionais como ele saiam das sombras.
Se lá fora os dublês começam a ser celebrados, o Brasil também tem nomes de peso nessa área. Jackson Spina e Wallace Meirelles são dois exemplos de veteranos que se tornaram referência nacional em coordenação de cenas de ação. Ambos iniciaram a carreira em meados dos anos 1980 e 90, período em que a indústria brasileira carecia de recursos para grandes sequências de ação, exigindo muita criatividade e coragem. Spina atuou como dublê em filmes e novelas, aperfeiçoando técnicas de queda e lutas cinematográficas, e acabou por liderar equipes de dublês em produções televisivas de ação. Já Meirelles, além de dublê, tornou-se diretor de cenas de ação e consultor, trazendo para sets brasileiros conhecimentos adquiridos com equipes estrangeiras. Esses profissionais contribuíram para desenvolver uma cultura de segurança e treino especializado por aqui, além de formar novos talentos.
Hoje, muitos dos dublês brasileiros passam por oficinas e workshops conduzidos por veteranos como Spina e Meirelles, que ensinam desde coreografias de briga até manobras com carros. Embora o mercado nacional seja menor, eles ressaltam que a paixão é a mesma. “Dublê brasileiro faz de tudo um pouco, se vira com pouco equipamento e muita vontade”, diz Meirelles em entrevistas, indicando que a versatilidade é o ponto forte de quem trabalha em ação no Brasil.
Um dublê de ação se apresenta de moto no tapete vermelho de “The Fall Guy” (Dolby Theatre, Hollywood, 2024), em evento promocional que colocou os holofotes sobre a categoria. Eventos como esse exemplificam a mudança de atitude da indústria: antes relegados aos bastidores, os dublês agora são chamados ao centro das atenções para mostrar seu talento. “Por muitos anos, nosso trabalho era chegar cedo, ensaiar, se machucar um pouquinho, entregar a cena perfeita e ir embora sem ninguém nem notar”, comenta Thiago Luzzatto com bom humor. “Agora a maré está virando. Até o público está curioso para saber quem são os dublês, como a gente faz aquilo acontecer”, diz ele, referindo-se à visibilidade que a categoria vem ganhando nas redes sociais e na imprensa especializada.
“Nós merecíamos esse momento”: o que dizem os dublês
Para quem vive a realidade da profissão, a criação do Oscar de dublês tem um sabor especial. “É uma vitória para todo dublê, do iniciante ao veterano”, opina Thiago Luzzatto. Ele admite que, quando começou na área, não imaginava que veria um reconhecimento desse nível em sua geração. “Sempre ouvi que dublê bom não aparece, a gente meio que abraçou esse anonimato. Mas lá no fundo, claro que a gente queria esse respeito. Queríamos bater no peito e dizer: fazemos arte, não apenas ‘trabalho braçal’”, desabafa.
Luzzatto lembra que certa vez, após uma cena arriscada em uma série de TV, ouviu aplausos da equipe técnica no set. Com o tom de brincadeira e um sorriso audível na voz ele fala: “Foi meu pequeno ‘Oscar’ pessoal naquele dia. Agora, pensar que haverá um Oscar de verdade para nosso trabalho é emocionante”, finalizou.
Luzzatto também acredita que a novidade trará reflexos positivos para além de Hollywood. “Quando a Academia dá um Oscar para dublês, manda uma mensagem para o mundo todo. Aqui no Brasil, quem sabe as produtoras olhem com mais carinho para a gente, invistam mais em segurança, em treinamento”, sugere o dublê.
Ele destaca que, muitas vezes, a economia em produções locais acaba sobrecarregando os profissionais de ação, e espera que a visibilidade faça os estúdios perceberem o valor de um dublê bem preparado. “Valorizar o dublê não é só dar prêmio, é melhorar cachê, ter seguro de vida decente, ter reconhecimento nos créditos, trazer equipamento moderno”, enumera. A expectativa dele é que a categoria no Oscar acabe estimulando outras premiações (como o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, ou festivais) a criarem troféus nacionais para coordenadores de dublês e equipes de ação. “Seria incrível ver um troféu brasileiro para melhor cena de ação do ano, por exemplo”, projeta.
O futuro, na visão de Luzzatto e de tantos colegas, nunca foi tão promissor para a profissão. “Estou ansioso para assistir ao Oscar e ver os dublês subindo no palco pela primeira vez”, confessa o mato-grossense. “Vai ser como se todos nós estivéssemos lá, sendo reconhecidos”. Ele conta que, no grupo de conversa que mantém com dublês e dublês atores do Brasil inteiro, a repercussão da notícia foi imediata: “A gente brinca, começa a pensar no discurso! Quem sabe um brasileiro não ganha um desses?”.
Brincadeiras à parte, Luzzatto enfatiza que o mais importante é a mudança de percepção: “O público vai olhar para uma cena de ação no cinema e lembrar que ali teve o trabalho de um dublê, de uma equipe inteira. Vão saber que por trás daquele momento espetacular teve muita dedicação e perigo de verdade.”
Heróis Anônimos
Com a inclusão dos dublês de ação no Oscar, Hollywood dá um passo significativo para reconhecer uma parte fundamental da magia do cinema. Os saltos impossíveis, as lutas coreografadas e as explosões controladas, elementos que fazem o coração do público disparar, finalmente terão seus artistas devidamente homenageados. Mais do que uma categoria a mais na premiação, trata-se de um tributo a gerações de profissionais que, literalmente, colocam o corpo em jogo pela arte.
A partir de 2026, quando a primeira estatueta for entregue a uma equipe de dublês, cada espectador saberá que aqueles nomes antes ocultos nos créditos agora ocupam o centro do palco. E, como bem definiu Thiago Luzzatto, “esse reconhecimento não apaga nosso passado anônimo, mas ilumina nosso futuro”. Um futuro em que os heróis anônimos do cinema deixam de ser anônimos, sem jamais deixarem de ser heróis.
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