Conhecimento técnico já não basta: mercado passa a exigir um novo perfil de liderança na gestão condominial

Condomínios mais complexos, novas responsabilidades e mudanças no comportamento dos moradores ampliam o papel do síndico. Especialistas defendem que comunicação, inteligência emocional, reputação e desenvolvimento humano passaram a ser competências tão importantes quanto o domínio da legislação e da administração.

Durante muito tempo, a formação dos síndicos esteve concentrada em aspectos técnicos da gestão. Legislação, prestação de contas, manutenção predial, contratos, orçamento e mediação de assembleias eram considerados os principais pilares para administrar um condomínio.

Essa realidade continua sendo fundamental, mas já não é suficiente.

Nos últimos anos, a transformação dos empreendimentos e o aumento da complexidade da vida em condomínio ampliaram significativamente o papel dos gestores. Além da administração patrimonial, eles passaram a lidar com proteção de dados, compliance, gestão de crises, comunicação institucional, mediação de conflitos, segurança, sustentabilidade, relacionamento com moradores e tomada de decisões em situações cada vez mais delicadas.

A mudança acompanha a evolução do próprio mercado imobiliário brasileiro. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o setor encerrou 2025 com recordes de lançamentos e vendas de imóveis residenciais. No acumulado de 12 meses, foram mais de 453 mil unidades lançadas e cerca de 426 mil imóveis comercializados, confirmando a expansão da vida em condomínio e a crescente complexidade da gestão desses empreendimentos.

O perfil da moradia também mudou. Dados do Censo Demográfico 2022, do IBGE, mostram que a proporção de brasileiros que vivem em apartamentos passou de 8,5% em 2010 para 12,5% em 2022, refletindo o avanço da verticalização nas cidades e a intensificação da convivência em espaços coletivos.

Para a advogada, síndica profissional, palestrante e autora Vanessa Munis, essas mudanças exigem uma revisão da forma como os líderes condominiais são preparados.

“O conhecimento técnico continua indispensável. O problema é acreditar que ele responde sozinho aos desafios da profissão. O síndico administra patrimônio, mas, antes de tudo, administra pessoas. E liderar pessoas exige competências que vão além da legislação e dos processos administrativos.”

Essa reflexão foi apresentada durante a palestra “O Síndico do Futuro”, realizada por Vanessa no V Congresso de Gestão Condominial de Pernambuco, promovido pelo Secovi-PE. A proposta foi ampliar o debate sobre o futuro da profissão, defendendo que a evolução tecnológica precisa caminhar ao lado do desenvolvimento humano.

O mercado mudou. A formação acompanhou essa transformação?

A profissionalização da sindicatura avançou nos últimos anos, impulsionada por condomínios mais sofisticados e por moradores cada vez mais exigentes. Hoje, além da gestão financeira e operacional, espera-se que o síndico tenha capacidade para conduzir negociações, administrar conflitos, comunicar decisões de forma transparente, proteger informações sensíveis, liderar equipes e fortalecer a cultura organizacional do condomínio.

Na avaliação de Vanessa, essa transformação exige uma ampliação da formação dos gestores.

“A técnica continua sendo a base da profissão. Mas liderança, comunicação, inteligência emocional, posicionamento e ética passaram a influenciar diretamente a qualidade da gestão. São essas competências que fortalecem a confiança entre moradores, funcionários e administração.”

Segundo ela, a evolução do mercado exige uma liderança que saiba equilibrar três dimensões inseparáveis: conhecimento técnico, habilidade para lidar com pessoas e atitudes coerentes com os valores que defende.

“Não basta saber o que precisa ser feito. É preciso saber como conduzir pessoas durante esse processo e agir de forma coerente, principalmente nos momentos de maior pressão.”

O desafio de cuidar de quem cuida

Outra mudança observada por Vanessa está relacionada à própria rotina dos gestores.

O aumento das responsabilidades, a disponibilidade permanente proporcionada pelos aplicativos de mensagens, a pressão por respostas imediatas e a exposição constante fizeram com que muitos síndicos passassem a conviver com elevados níveis de desgaste emocional.

Durante sua palestra, uma frase sintetizou essa preocupação.

“Nenhum CNPJ vale um AVC.”

A reação espontânea do auditório, que respondeu em coro “amém”, mostrou que o tema encontra eco entre profissionais que convivem diariamente com esse cenário.

“Existe uma cultura que associa liderança à capacidade de suportar tudo. Muitos gestores acreditam que precisam resolver todos os problemas, estar disponíveis o tempo inteiro e nunca demonstrar limites. Esse modelo produz profissionais emocionalmente esgotados.”

Para ela, cuidar da própria saúde deixou de ser apenas uma questão individual.

“Quem não cuida de si dificilmente conseguirá cuidar de uma comunidade. Liderança também exige equilíbrio, consciência e responsabilidade consigo mesmo.”

Reputação se constrói no cotidiano

Na avaliação da especialista, outro aspecto que ganha importância na nova gestão condominial é a reputação.

Mais do que resultado financeiro ou eficiência operacional, moradores observam diariamente a postura de quem ocupa a liderança.

A forma como uma decisão é comunicada, a maneira de tratar um funcionário, a condução de um conflito ou a disposição para reconhecer um erro influenciam diretamente a confiança depositada na administração.

“Reputação não nasce de um discurso. Ela é construída nas pequenas atitudes. É quando ninguém está olhando que o caráter, a ética e a coerência realmente aparecem.”

Essa visão também está presente no livro A Arte de Se Posicionar no Ecossistema Condominial, em que Vanessa propõe uma reflexão sobre liderança, posicionamento, desenvolvimento humano e construção de comunidades mais saudáveis.

O futuro começa pelas pessoas

Embora reconheça a importância da tecnologia para tornar os condomínios mais eficientes, Vanessa acredita que o principal investimento da próxima década será na formação de líderes preparados para lidar com pessoas.

“Os condomínios continuarão evoluindo. Teremos mais inteligência artificial, mais automação e mais inovação. Mas nenhuma tecnologia substituirá a capacidade humana de ouvir, inspirar, construir confiança e tomar decisões éticas.”

Advogada há mais de 22 anos e síndica desde 2012, Vanessa Munis é certificada pela Fundação Vanzolini (USP), membro da Comissão de Advocacia Condominial da OAB-SP, onde coordena o Subgrupo de Violência Doméstica, integrante do SindExpert do Secovi-SP e da ANACON. Autora dos livros A Arte de Se Posicionar no Ecossistema Condominial e Onde o Caráter se Revela, defende que o desenvolvimento da gestão condominial passa necessariamente pelo desenvolvimento das pessoas que escolhem liderar.

“Quando falamos em síndico do futuro, não estamos falando apenas de um profissional mais preparado tecnicamente. Estamos falando de alguém capaz de unir conhecimento, consciência e coerência para construir comunidades mais humanas, mais responsáveis e mais saudáveis.”

(Crédito: Arquivo Pessoal / iStock)

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