Escassez global de engenheiros agrimensores afeta Brasil e EUA

Projetos de construção atrasados, obras de infraestrutura postergadas e incorporadoras disputando a peso de ouro os poucos profissionais disponíveis, assim se desenha o cenário da escassez global de engenheiros agrimensores, especialistas responsáveis por medir e mapear terrenos. Brasil e Estados Unidos, duas das maiores economias do mundo, enfrentam a falta desses profissionais essenciais, uma situação que ameaça desde empreendimentos imobiliários até planos nacionais de desenvolvimento futuro.

Nos Estados Unidos, a categoria vive um franco envelhecimento. A idade média de um agrimensor licenciado já gira em torno de 57 a 58 anos, e para cada novo profissional que ingressa na área, outros dois ou três estão se preparando para se aposentar. Isso resultou em um esvaziamento silencioso: licitações demoradas, vagas de trabalho não preenchidas e clientes frustrados com atrasos inesperados em levantamentos topográficos.

 “À medida que agrimensores como eu envelhecem, é essencial educar a nova geração sobre esta profissão vasta”, diz Chris Conrad, vice-presidente da firma de agrimensura L.I. Smith & Associates, enfatizando a necessidade de atrair jovens talentos para a área. Jerry Carter, diretor-presidente do National Council of Examiners for Engineering and Surveying (NCEES), aponta uma estatística preocupante: “Observamos uma redução significativa no número de candidatos fazendo os exames de licenciamento, e essa tendência deve continuar”.

Em outras palavras, há mais vagas para agrimensores do que pessoas qualificadas para ocupá-las, uma escassez que tende a se agravar conforme a geração atual se retira do mercado.

No Brasil, o déficit também é alarmante. A demanda por agrimensores supera em muito a oferta de profissionais, especialmente com novas exigências legais no campo. Desde 2023, tornou-se obrigatório o georreferenciamento de imóveis rurais com área a partir de 25 hectares, o que inflou a procura por serviços de agrimensura em todo o país. Entretanto, existia apenas um técnico credenciado para cada 330 propriedades rurais no Brasil para realizar esse trabalho. Em números absolutos, eram 19,4 mil profissionais para atender cerca de 6,4 milhões de imóveis, uma disparidade que evidencia o gargalo.

Com a previsão de estender a obrigatoriedade do georreferenciamento a propriedades ainda menores até 2026, a preocupação é grande: “É preciso investir para que se cumpra a lei. O próximo passo é exigir também de propriedade com menos de 25 hectares. Acarretando um aumento ainda maior da demanda. Essa atualização deve ocorrer até 2026, portanto, estamos bastante atrasados”, alerta Rogério Neves, CEO da empresa de geotecnologia CPE, ressaltando que não adianta criar exigências sem profissionais suficientes para cumpri-las.

Os impactos econômicos da escassez já se fazem sentir. No Brasil, a falta de agrimensores e outros engenheiros começa a comprometer obras e programas estratégicos. Esses profissionais são fundamentais para que as empresas sejam mais eficientes, inovadoras e bem-sucedidas.

Vinicius Marchese, presidente do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), se mostra preocupado ao falar sobre projetos habitacionais quanto a planos de infraestrutura que dependem diretamente do trabalho de engenheiros agrimensores e correlatos: “Sem engenheiros, programas como o Minha Casa, Minha Vida e o novo PAC se tornarão inviáveis”, afirma Marchese.

Nos EUA, o atraso em levantamentos topográficos já impacta o setor imobiliário, corretores relatam demora na conclusão de surveys de propriedades, o que atrasa financiamentos e escrituras. Obras de rodovias e edifícios também enfrentam lentidão devido à dificuldade de encontrar profissionais disponíveis para marcar terrenos e orientar construções. Em certos casos, técnicos menos experientes acabam assumindo responsabilidades acima de sua qualificação para suprir a falta de pessoal sênior, elevando riscos e reduzindo a qualidade do serviço.

 

 

Por que faltam agrimensores?

Diversos fatores explicam o apagão de engenheiros agrimensores nas duas nações. Um dos principais é o desinteresse das novas gerações por essa carreira especializada. Apenas 14% dos profissionais de agrimensura, cartografia e áreas afins nos EUA têm menos de 34 anos de idade, de acordo com dados do Bureau of Labor Statistics. Em outras palavras, a grande maioria está em idade madura ou próxima da aposentadoria.

No Brasil, a tendência geral é semelhante. De 2015 a 2023, as matrículas em cursos de engenharia caíram 25%, e nas engenharias tradicionais como a civil (que forma muitos agrimensores), o tombo chegou a 52%. Esse desinteresse pela formação técnica tem raízes na deficiência do ensino básico em ciências exatas, mas também na falta de visibilidade da agrimensura como carreira atrativa.

Especialistas apontam ainda barreiras estruturais. Nos EUA, o caminho para se tornar um agrimensor licenciado exige longa formação e estágio, com muitos estados demandando diploma universitário de quatro anos e aprovação em exames rigorosos. Trata-se de um investimento de tempo e dinheiro que poucos jovens estão dispostos a encarar, principalmente quando outras áreas de tecnologia oferecem ascensão mais rápida.

Além disso, os salários iniciais nem sempre compensam, em algumas regiões dos EUA, a remuneração média de um agrimensor é relativamente baixa comparada a outras profissões de nível similar, o que reduz a competitividade da carreira.

Outro fator é a automação e mudança nas equipes de campo. Décadas atrás, era comum uma equipe de agrimensura ter três ou quatro pessoas (engenheiro, auxiliares, cadistas) trabalhando juntas, o que permitia aos novatos aprenderem na prática. Hoje, com estações totais robotizadas, GPS de alta precisão e drones, muitas empresas operam com equipes reduzidas, às vezes um único profissional em campo, transmitindo dados digitais para o escritório.

Essa eficiência tecnológica, embora bem-vinda para a produtividade, acabou reduzindo as oportunidades de treinamento on-job para os ingressantes. “A tecnologia nos permitiu fazer mais com menos gente, mas também tornou mais difícil recrutar e ensinar novos agrimensores”, avalia Hermano Barroso, engenheiro agrimensor com mais de 30 anos de experiência e diretor da Morato & Barroso Projetos, empresa que presta serviços de topografia a órgãos públicos e privados.

Em sua visão, o setor colhe agora as consequências de uma lacuna na transmissão de conhecimento: “Ficamos quase uma geração sem renovar adequadamente os quadros. Muitos veteranos saíram e não houve jovens suficientes para absorver a expertise deles”, diz Barroso.

Capacitação e tecnologia como saída

Para reverter esse quadro, organizações profissionais e empresas dos dois países apostam em duas frentes principais: formação de novos agrimensores e uso de tecnologia para elevar a produtividade dos profissionais em atividade. Nos EUA, entidades como a National Society of Professional Surveyors (NSPS) intensificaram ações de divulgação da carreira em escolas e universidades, incluindo concursos de matemática aplicada e programas de mentoring, na tentativa de mostrar aos jovens que a agrimensura pode ser tão empolgante quanto outras áreas de tecnologia.

Além disso, empresas de topografia têm criado programas de trainee e estágios voltados especificamente à agrimensura, para transmitir habilidades práticas que antes eram aprendidas em campo. “Usando o conhecimento de ciência, tecnologia, engenharia e matemática que os jovens já têm, eles podem encontrar na agrimensura um campo rico e sem monotonia, nenhum dia de trabalho é igual ao outro”, defende Conrad, ao incentivar estudantes a considerar a profissão.

No Brasil, conselhos profissionais e universidades também procuram modernizar o currículo e reduzir a evasão nos cursos de agrimensura e cartografia. Iniciativas de valorização profissional, como a criação do Dia do Engenheiro Agrimensor (4 de junho) e campanhas destacando a importância da atividade, visam melhorar a percepção da carreira entre os estudantes.

“Uma das primeiras atividades de Engenharia desenvolvidas pelo homem, a Agrimensura permanece indispensável como trabalho básico em várias intervenções atuais”, destaca um informativo do Confea, lembrando que os agrimensores dão suporte a boa parte das obras e projetos territoriais, das demarcações de terras à expansão de cidades. Em outras palavras, trata-se de uma profissão vital para o desenvolvimento sustentável, cuja ausência deixaria diversos setores paralisados.

Enquanto mudanças estruturais não produzem efeito, empresas especializadas e modernizadas tentam suprir a carência de agrimensores com soluções inovadoras de curto prazo. Hermano Barroso é um desses pioneiros. À frente da Morato & Barroso Projetos, ele adotou o que chama de “força-tarefa tecnológica”: drones equipados com sensores de alta resolução, GPS de última geração, scanners 3D a laser e softwares avançados de processamento. Com essas ferramentas, um único engenheiro agrimensor experiente consegue cobrir uma área que antes exigiria várias equipes, realizando levantamentos topográficos em menos tempo.

“A tecnologia é nossa aliada para fazer mais com menos gente, mas não substitui o fator humano”, pondera Barroso. Segundo ele, de nada adianta ter drones e aparelhos modernos sem profissionais capacitados para operá-los e interpretar os dados corretamente. Por isso, o engenheiro desenvolveu uma metodologia de treinamento acelerado para formar auxiliares a partir de outras áreas técnicas.

“Não podemos esperar quatro ou cinco anos até formar um engenheiro agrimensor do zero. Então, capacitamos pessoas que já têm conhecimento em geografia, geologia ou engenharia civil para interpretar mapas, manusear estações totais, drones e outros equipamentos, sempre sob supervisão de um engenheiro sênior”, explica Barroso.

O resultado, segundo ele, é que cada engenheiro experiente consegue liderar múltiplas frentes de trabalho com apoio desses técnicos especializados. “Assim conseguimos atender mais projetos ao mesmo tempo, sem comprometer a qualidade ou a segurança”, afirma. Essa abordagem de treinamento cruzado alinha-se a medidas emergenciais adotadas por órgãos reguladores no Brasil recentemente.

Diante da falta de agrimensores, passou-se a autorizar engenheiros civis, florestais e até arquitetos a executarem serviços de georreferenciamento de terras, tarefa antes exclusiva de agrimensores, desde que atendam a requisitos de capacitação específicos. A ampliação do leque de profissionais aptos visa mitigar os gargalos no curto prazo, mas especialistas alertam que é preciso investir pesado em treinamento e em recursos tecnológicos para garantir a qualidade do serviço e suprir a demanda urgente.

Hermano Barroso defende que a agrimensura de alta precisão, apoiada por tecnologia e novos métodos de formação, é um serviço do futuro. “Com a crescente demanda por planejamento territorial, obras de infraestrutura e monitoramento ambiental, quem investir em capacitação e inovação agora estará na frente quando o mercado exigir ainda mais desses serviços”, afirma o engenheiro.

Em sua visão, a profissão de agrimensor está se transformando de um ofício tradicional muitas vezes “invisível” aos olhos do público, para uma carreira interdisciplinar, que combina conhecimento em exatas, informática e gestão de dados espaciais.

No longo prazo, Brasil e Estados Unidos terão de tornar essa carreira mais atraente se quiserem reverter a tendência de escassez. Isso inclui desde melhorias educacionais, reforçando a base em matemática e mostrando aplicações modernas da agrimensura, até incentivos materiais, como remuneração compatível e planos de carreira bem definidos. Enquanto essas mudanças não se consolidam, o mundo convive com a falta de quem define seus limites e caminhos. E essa ausência já cobra seu preço: quando os profissionais responsáveis por mapear o território somem, o desenvolvimento de um país literalmente perde o rumo.

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